Guerra de preços no mercado automotivo chinês ameaça lucros e qualidade

Os descontos agressivos da BYD, que abrangem modelos das séries Dynasty e Ocean, visam impulsionar as vendas e defender a participação de mercado em um setor de VEs cada vez mais saturado
Guerra de preços no mercado automotivo chinês ameaça lucros e qualidade
Crédito da imagem: Geely
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A nova onda de cortes de preços da BYD em 22 modelos de carros elétricos acendeu uma guerra no mercado automotivo chinês. Os descontos chegaram a 53 mil yuan (cerca de US$ 7.300), fazendo com que outras montadoras corressem para responder e mantendo o setor em alerta.

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O modelo Seagull, com assistência avançada ao motorista, agora custa a partir de 55.800 yuan (US$ 7.700). Já o Seal 07 DM-i caiu para 102.800 yuan (US$ 14.400) com ajuda de subsídios da própria BYD e do governo. Os cortes também incluíram as linhas Dynasty e Ocean, reforçando a estratégia da empresa de dominar o segmento de entrada.

Guerra de preços no mercado automotivo chinês ameaça lucros e qualidade
Crédito da imagem: BYD

Marcas rivais como Geely, Chery, SAIC-GM e Buick também baixaram preços, lançando promoções e bônus de troca. A Chery, por exemplo, reduziu o preço do Tiggo 3X para 34.900 yuan (US$ 4.900), enquanto o Geely Geome Xingyuan passou a custar 59.800 yuan (US$ 8.400). A Buick reposicionou o Envision e o LaCrosse, e a Geely anunciou expansão na América Latina.

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O impacto nos consumidores é direto: recursos como direção inteligente, bancos ventilados e central multimídia avançada agora cabem no bolso de mais gente, com modelos bem equipados abaixo de 100.000 yuan (US$ 14.000). Mas especialistas alertam para riscos ocultos, como o uso de materiais e componentes mais baratos para cortar custos.

Nos bastidores, cresce o medo de que a qualidade dos carros seja sacrificada. Há relatos de que fornecedores estão sendo forçados a reduzir preços em até 30%, e até a qualidade do aço estaria sendo comprometida. Uma concessionária da BYD em Shandong faliu por não conseguir lidar com o estoque parado.

Guerra de preços no mercado automotivo chinês ameaça lucros e qualidade
Crédito da imagem: BYD

O governo chinês começou a intervir. O Ministério da Indústria e a associação das montadoras (CAAM) emitiram alertas sobre os perigos da competição descontrolada. A margem de lucro do setor caiu de 4,3% em 2024 para 3,9% no primeiro trimestre de 2025. O jornal estatal People’s Daily comparou a situação ao colapso da indústria de motos, que perdeu espaço no Sudeste Asiático por vender abaixo do custo.

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Alguns líderes do setor reagiram com críticas duras à BYD. Wei Jianjun, presidente da Great Wall Motors, comparou a situação à crise da incorporadora Evergrande, acusando a BYD de se endividar demais e pressionar fornecedores. A empresa negou as acusações e afirmou que está focada em competitividade e inovação. Já Yin Tongyue, da Chery, disse que os cortes foram uma “pressão do mercado”.

Apesar da turbulência, analistas veem lógica na estratégia da BYD. A empresa quer vender 5,5 milhões de carros em 2025, mas só vendeu 1,38 milhão até abril. Com forte produção interna (90% das baterias são feitas por ela mesma) e o lítio mais barato (caiu de US$ 82 mil para US$ 8.200 por tonelada), ela consegue manter margens saudáveis mesmo com os descontos.

O objetivo da BYD vai além das vendas do momento. A marca busca consolidar o setor e dominar o segmento de elétricos abaixo de 100.000 yuan, onde ainda tem só 7,4% de participação, mesmo com penetração de 82%. E com 3,5 milhões de veículos encalhados no mercado chinês, a empresa quer sair na frente na corrida pela consolidação.

Mas a aposta tem riscos. As ações da BYD despencaram mais de 10% em dois dias em maio, apagando mais de 100 bilhões de yuan em valor de mercado (US$ 13,8 bilhões). Mesmo assim, analistas seguem confiantes por causa do lucro de US$ 5,5 bilhões em 2024 e o investimento de US$ 7,5 bilhões em pesquisa e desenvolvimento.

A guerra de preços pode mudar o setor para sempre. O MIIT quer pôr fim à “corrida para o fundo do poço” e prevê uma redução no número de marcas. A expectativa é que, no futuro, apenas 5 a 7 montadoras liderem o mercado chinês.

Por fim, os próximos capítulos devem acontecer em outro campo: tecnologia e expansão global. A competição por preço ainda domina, mas logo o foco será em diferenciação por inovação — um novo tipo de disputa está a caminho.

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