A ofensiva da BYD sobre o mercado europeu deixou de ser apenas um plano de expansão industrial e passou a representar uma mudança estratégica profunda no setor automotivo do continente. A montadora chinesa, que já domina o mercado global de veículos elétricos, abriu negociações com a Stellantis e outras fabricantes europeias para assumir fábricas subutilizadas na Europa, em um movimento que pode redesenhar a produção automotiva da região nos próximos anos.
As conversas foram confirmadas por Stella Li, vice-presidente executiva da BYD, durante a conferência “Future of the Car”, organizada pelo Financial Times, em Londres. Segundo a executiva, a empresa procura instalações industriais disponíveis em diversos países europeus, especialmente na Itália, com o objetivo de aproveitar estruturas já existentes e acelerar sua presença produtiva fora da China.
A estratégia marca uma mudança importante na atuação da BYD na Europa. Até pouco tempo, a companhia apostava principalmente na construção de novas unidades industriais do zero. Agora, a possibilidade de adquirir fábricas prontas da Stellantis e de outros grupos mostra uma tentativa clara de reduzir custos, acelerar operações e ocupar rapidamente espaços deixados pela desaceleração da indústria automotiva tradicional europeia.
Nos bastidores, o interesse da BYD coincide com um momento delicado vivido pela Stellantis. O grupo franco-italiano enfrenta queda acentuada de produção em suas operações europeias, especialmente na Itália, onde o setor automotivo atravessa a pior crise em décadas. A produção de veículos no país despencou nos últimos anos, retirando a Itália da lista das maiores fabricantes mundiais e pressionando duramente marcas históricas como Fiat, Alfa Romeo, Maserati, Lancia e Jeep.
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Somente no primeiro trimestre de 2026, a produção italiana da Stellantis caiu mais de 35% em relação ao mesmo período do ano anterior. O grupo também iniciou um amplo processo de reestruturação bilionária após reconhecer internamente que havia superestimado a velocidade da transição global para os veículos elétricos. A combinação entre fábricas ociosas, custos elevados e queda na demanda abriu espaço para o avanço das montadoras chinesas.
Enquanto isso, a BYD acelera sua internacionalização diante de uma realidade cada vez mais dura no mercado chinês. A fabricante vem sofrendo com uma longa guerra de preços no país asiático, cenário que reduziu margens de lucro e provocou forte pressão financeira. A empresa registrou queda expressiva no lucro líquido no início de 2026 e acumula meses consecutivos de desaceleração nas vendas domésticas.
Ao mesmo tempo em que o mercado interno perdeu força, a demanda internacional disparou. A BYD elevou sua meta de vendas externas para 1,5 milhão de veículos em 2026, impulsionada principalmente pela expansão na Europa. O aumento nos preços dos combustíveis provocado pelas tensões no Oriente Médio também reacendeu o interesse dos consumidores europeus por modelos elétricos e híbridos, favorecendo diretamente as fabricantes chinesas.
Os números recentes ajudam a explicar a agressividade da empresa no continente. Em março, a BYD praticamente triplicou seus registros na Europa, alcançando mais de 37 mil unidades e ampliando sua participação de mercado na União Europeia, Reino Unido e países da EFTA. Na Alemanha, maior mercado automotivo europeu, a montadora bateu recorde histórico de vendas em abril, superando com folga os resultados obtidos no ano anterior.
Além da expansão comercial, a BYD já iniciou sua estrutura industrial europeia. A companhia começou a produção experimental em sua fábrica na Hungria, localizada em Szeged, com previsão de operação em larga escala ainda este ano. Paralelamente, a empresa avança na construção de sua segunda unidade na Turquia e avalia novos investimentos em Portugal e Espanha, atraída pelos custos menores de produção e pela disponibilidade de energia limpa.
A ofensiva chinesa não acontece de forma isolada. Outras fabricantes do país também começaram a buscar espaço dentro da infraestrutura industrial europeia. Recentemente, surgiram negociações envolvendo a Geely e antigas operações da Ford na Espanha, além de conversas da estatal Hongqi para utilizar instalações ligadas à Stellantis. O movimento revela uma tendência crescente de fabricantes chinesas assumirem ativos industriais já existentes no continente.
Esse avanço ganhou força principalmente após a União Europeia impor tarifas compensatórias sobre veículos elétricos produzidos na China. Diante das barreiras comerciais, as montadoras chinesas passaram a enxergar a produção local como alternativa estratégica para manter competitividade, reduzir impactos tarifários e ampliar participação no mercado europeu sem depender exclusivamente das exportações asiáticas.
A própria Stellantis já intensificou seus laços com fabricantes chinesas. O grupo ampliou recentemente sua parceria com a Leapmotor, prevendo novas linhas de produção na Espanha para modelos elétricos destinados ao mercado europeu. O acordo envolve fábricas em Zaragoza e Madrid, incluindo a possibilidade de transferência operacional de unidades industriais para subsidiárias ligadas à marca chinesa.
Enquanto consolida sua presença industrial, a BYD também fortalece sua imagem de marca premium na Europa. A empresa lançou oficialmente a Denza em Paris e apresentou tecnologias de carregamento ultrarrápido, além de iniciar uma ofensiva para contratar profissionais de concorrentes tradicionais europeias.
Com modelos já disponíveis no continente e planos de expansão para o Reino Unido, a fabricante chinesa deixa claro que não pretende apenas vender carros na Europa, mas disputar diretamente espaço com as gigantes históricas do setor automotivo mundial.
