Uma proposta que avança no Congresso dos Estados Unidos pode criar um cenário inesperado para uma das marcas mais tradicionais da indústria automobilística mundial. A Mercedes-Benz, que há décadas produz veículos em solo americano e mantém milhares de empregos no país, corre o risco de ser impedida de fabricar, importar e vender automóveis novos no mercado norte-americano caso o texto seja aprovado sem alterações.
O projeto, batizado de Motor Vehicle Modernization Act of 2026, nasceu com o objetivo de reduzir a influência de governos considerados adversários estratégicos dos Estados Unidos dentro do setor automotivo. Embora a medida tenha sido desenhada principalmente para conter o avanço de fabricantes chinesas, a redação atual acabou colocando empresas globais sob análise, incluindo a própria Mercedes-Benz.
O ponto central da discussão está na estrutura acionária da fabricante alemã. A legislação prevê restrições para montadoras que possuam qualquer participação acionária direta ou indireta ligada a governos classificados como adversários por Washington. Nesse grupo estão países como China, Rússia e Coreia do Norte, ampliando o alcance da proposta para além das empresas sediadas nesses territórios.
A situação da Mercedes decorre principalmente da presença da BAIC, estatal chinesa do setor automotivo, que detém 9,98% das ações da companhia. Além dela, o empresário chinês Li Shufu, fundador da Geely, controla outros 9,69% por meio de uma empresa de investimentos. Juntas, essas participações representam cerca de 19,7% do capital da montadora alemã.
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Especialistas e fontes envolvidas nas discussões legislativas afirmam que a redação atual abre espaço para interpretações que poderiam enquadrar a Mercedes nas restrições previstas. Segundo relatos divulgados pela imprensa americana, a linguagem utilizada no projeto é considerada ampla o suficiente para atingir empresas que, embora não sejam chinesas, possuam vínculos societários relevantes com investidores ligados ao país asiático.
A preocupação aumenta porque as exceções previstas na proposta podem não ser suficientes para proteger a fabricante. O texto beneficia montadoras que produzem veículos nos Estados Unidos há pelo menos cinco anos antes de 2026, mas essa proteção deixa de valer para empresas que tenham participação acionária direta ou indireta de governos considerados adversários, justamente o ponto que envolve a BAIC.
O eventual impacto seria significativo. A Mercedes-Benz possui uma longa trajetória industrial nos Estados Unidos, com operações no Alabama desde 1997 e produção de milhões de veículos ao longo das últimas décadas. A fabricante também mantém instalações na Carolina do Sul, emprega mais de 10 mil trabalhadores e recentemente ampliou seus investimentos ao transferir parte da produção de modelos estratégicos para fábricas americanas.
O mercado americano ocupa posição fundamental nos resultados globais da companhia. Somente no último ano, a Mercedes comercializou mais de 303 mil automóveis de passeio e cerca de 12 mil vans no país. Uma eventual exclusão representaria não apenas perda de vendas, mas também um duro golpe em uma das regiões mais importantes para as marcas de luxo no mundo.
A proposta faz parte de um movimento mais amplo do governo e do Congresso dos Estados Unidos para endurecer regras relacionadas à presença chinesa em setores considerados estratégicos. Nos últimos meses, outras iniciativas semelhantes surgiram envolvendo veículos conectados, softwares automotivos e até plataformas digitais, refletindo a crescente preocupação das autoridades americanas com questões econômicas, tecnológicas e de segurança nacional.
Por enquanto, o futuro da Mercedes-Benz permanece indefinido. O projeto ainda está em fase de tramitação e pode sofrer alterações antes de uma eventual aprovação. Paralelamente, a montadora acompanha as discussões e busca esclarecer aos parlamentares os efeitos que a legislação poderia causar. Caso o texto permaneça como está, mudanças na composição acionária ou ajustes na redação da lei aparecem como os caminhos mais prováveis para evitar que uma das maiores fabricantes premium do mundo seja afastada do mercado automotivo dos Estados Unidos.
