Resumo da Notícia
A trajetória da Lecar, uma das fabricantes brasileiras que busca espaço no segmento de veículos eletrificados, entrou em uma nova fase de incertezas. Em meio aos desafios para transformar protótipos em automóveis produzidos em série, a empresa agora enfrenta a suspensão de sua habilitação no Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), medida determinada pelo governo federal.
A decisão foi oficializada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que identificou a ausência de documentos obrigatórios relacionados às atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação realizadas pela companhia. Sem essa comprovação, a fabricante perde temporariamente o acesso aos incentivos fiscais previstos pelo programa.
Segundo a portaria publicada pelo governo, a suspensão passou a valer retroativamente em 1º de maio de 2026 e permanecerá em vigor até que a empresa regularize sua situação. O principal problema apontado pelas autoridades foi a não entrega do Relatório de Execução de Projetos de Pesquisa e Desenvolvimento referente ao ano-calendário de 2024.
O documento é uma exigência fundamental para todas as empresas habilitadas no Mover. Por meio dele, o governo acompanha os investimentos realizados em engenharia, inovação tecnológica e desenvolvimento industrial, requisitos considerados essenciais para que as fabricantes tenham acesso aos benefícios tributários oferecidos pelo programa.
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Na prática, a perda da habilitação impede a utilização de créditos fiscais que ajudam a reduzir custos de produção e investimentos. Para uma montadora em fase de estruturação, como a Lecar, a restrição representa um obstáculo adicional em um momento considerado decisivo para a consolidação de seus projetos industriais.
A situação ocorre enquanto a empresa ainda tenta viabilizar comercialmente o sedã elétrico Lecar 459 e a picape Campo. Anunciados nos últimos anos com grande expectativa, os modelos continuam em fase de desenvolvimento e ainda não chegaram à linha de produção, permanecendo restritos a apresentações públicas e protótipos.
Outro fator que amplia as dificuldades da fabricante é o atraso na implantação de sua futura unidade industrial no Espírito Santo. O cronograma inicial previa o início das operações ainda neste ano, mas o projeto não avançou conforme o planejado e a estrutura fabril segue sem entrar em funcionamento.
Paralelamente aos desafios industriais, a empresa também está sob investigação do Ministério Público Federal. O procedimento foi aberto após questionamentos envolvendo o modelo de comercialização adotado pela companhia, baseado em planos de compra programada para veículos que ainda não foram produzidos em escala comercial.
As apurações buscam verificar se o formato utilizado atende às normas do mercado financeiro e de defesa do consumidor. Órgãos federais analisam aspectos relacionados à captação de recursos, às promessas de entrega futura dos veículos e à sustentabilidade financeira do modelo de negócios apresentado pela empresa.
A suspensão aplicada pelo MDIC não atingiu apenas a Lecar. Outras companhias ligadas à cadeia automotiva, como Cummins Filtros, Simoldes Aço Brasil, Nione e 3Sat Tecnologia, também tiveram suas habilitações interrompidas por pendências semelhantes relacionadas à apresentação de relatórios obrigatórios exigidos pelo programa.
Criado para substituir o antigo Rota 2030, o Mover se tornou o principal instrumento da política industrial automotiva brasileira. O programa prevê bilhões de reais em incentivos até o fim da década e estabelece metas rigorosas de eficiência energética, redução de emissões e investimentos em inovação, exigindo das empresas total transparência na comprovação dos projetos desenvolvidos no país.
