Resumo da Notícia
O debate sobre o futuro da mobilidade urbana no Vietnã ganhou força nos últimos meses com a decisão do governo de proibir motocicletas a gasolina no centro de Hanói a partir de meados de 2026. A medida, anunciada pelo primeiro-ministro Pham Minh Chinh, busca reduzir os níveis alarmantes de poluição do ar e será ampliada gradualmente até 2028.
Mas a iniciativa, embora ambientalmente ambiciosa, provocou forte reação de fabricantes japoneses e autoridades diplomáticas. A embaixada do Japão em Hanói enviou uma carta às autoridades vietnamitas alertando que uma proibição repentina pode gerar um efeito dominó na economia local.

O documento, obtido pela Reuters, afirma que a medida ameaça empregos em concessionárias, oficinas e fornecedores de peças, além de impactar diretamente um mercado bilionário dominado pela Honda. O Vietnã possui um dos maiores mercados de veículos de duas rodas do mundo, avaliado em cerca de US$ 4,6 bilhões neste ano.
Quase 80% da população — de 100 milhões de pessoas — possui motocicleta, o que torna o setor essencial para a economia. Não à toa, fabricantes e diplomatas pedem um “roteiro adequado” para a transição elétrica, com mais tempo para adaptação.
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Além da carta diplomática, o principal grupo de fabricantes estrangeiros de motocicletas — liderado por Honda e com participação de Yamaha Motor Company e Suzuki Motor Corporation — também alertou o governo vietnamita sobre riscos econômicos.
O comunicado cita a possibilidade de falências em fornecedores e revendedores, com impacto sobre centenas de milhares de trabalhadores. O grupo defende um período de transição de dois a três anos para preparar linhas de produção e infraestrutura de recarga.
Até agora, as autoridades vietnamitas mantêm o plano sem alterações, apesar da pressão internacional. Em declarações públicas, o primeiro-ministro reiterou que a redução das emissões é uma prioridade global e que o país precisa “encontrar a solução mais adequada com um roteiro eficiente”. A cidade de Ho Chi Minh, a maior do país, também avalia restrições semelhantes.
A Honda, responsável por 80% das vendas de motos no país — 2,6 milhões de unidades em 2024 —, liderou as negociações para rever o cronograma. A empresa tem quatro fábricas no Vietnã, onde sua marca virou sinônimo de motocicleta. Embora tenha alguns modelos elétricos, como os CUV e: e ICON e:, quase toda a produção local ainda depende de motores a combustão.
A pressão sobre a empresa cresceu após a divulgação dos números de vendas: em agosto, mês do anúncio da proibição, houve queda de 22% nas vendas em relação a julho. Já a concorrente local VinFast, especializada em elétricos, registrou alta de 55% no segundo trimestre, vendendo quase 70 mil unidades — um sinal de como a política ambiental pode acelerar a mudança de mercado.
O impacto também chegou ao setor automobilístico. Em setembro, as vendas de carros a gasolina caíram 18% em relação ao ano anterior, segundo a associação VAMA, que reúne montadoras, incluindo a Toyota Motor Corporation. Embora a entidade não espere efeitos diretos imediatos, reconhece que muitos consumidores já estão mais cautelosos diante da guinada verde do governo.
